Sidnei Magal virou cool. É o brega chique, o brega tradicional. Sidnei Magal marcou uma geração com um ritmo de músicas com melodias densas que tratam de declarações de amor, casamento, traição e desilusões.
Uma das teses sobre a origem da palavra brega é que ela deriva da rua Manuel da Nóbrega, em Salvador, rua esta que ficava numa região de meretrício da capital baiana. Com o tempo, a primeira sílaba da placa com o nome da rua foi ficando apagada e as pessoas passaram a se referir aos prostíbulos dessa região como “brega”. O termo se espalhou e, até os anos 1970, tinha também o sentido de “desordem”, “confusão”, por meio de expressões como: “Isto aqui está o maior brega!”, “que brega é esse?” etc., associando um ambiente ou situação qualquer ao caos de um “brega” .
Até aí tudo bem, afinal, é arte. O problema começa quando o amoroso, que deveria estar na arte ou nas relações privadas, começa a ocupar a política e esta passa a ser coordenada pela lógica das declarações amorosas, da traição, da sedução e de qualquer outra coisa que não o interesse público.
Os políticos de hoje, como nunca, apelam para o afeto. É o pobre presidente que se fez sozinho. O homem nascido quase que na manjedoura desbravou o mundo, superou dificuldades e discriminação e hoje alcançou o mais alto posto nacional sendo referência no mundo. Até aí, é uma história bonita, porém, é um equívoco pensar que a história pessoal de alguém que passa a ocupar um cargo público autoriza o sujeito a qualquer coisa e o exime de compromissos e muito estudo.
O mesmo ocorre com vários prefeitos e governadores que apelam para o falso self-made man. Ninguém se faz sozinho. Alcançar um posto político no Brasil exige ser um grande namorador, muito mais que alguém qualificado do ponto de vista da administração pública, preocupado com o erário ou que tenha uma qualificaçao básica, inclusive, com a língua portuguesa. É preciso ter humildade e admitir que a história é história e que para fazer coisas no presente é preciso mais que lembranças, filmes ou discursos passionais que fazem os outros chorarem pela identificação na dor ou no sonho.
Nesse campo de seduções privadas, se permitem absurdos como árvores de Natal sem licitação que custam mais de R$ 3 milhoes. Com menos que esse valor era possível, em Florianópolis, transformar a casa rosa, antiga Câmara de Vereadores e um dos primeiros prédios da cidade, em um centro cultural. Isso sim seria um “Natal dos sonhos” com um presente permanente para toda Santa Catarina.
Seria possível, ainda, construir alguns parques na cidade ou mesmo um espaço permanente para shows. A incapacidade de perceber que o dinheiro público não pode ser usado para manter as pessoas na melodia do sofrimento, apesar de ela gerar muitos votos, pressupõe um pouco de estudo e respeito pelos reais interesses da sociedade, isso sem falar em compromiso ético e vergonha na cara.
A política nacional parece um quadro de violência doméstica, no qual entre uma guerra e outra o algoz aparece com flores, show, árvores ou com o PAC, cuja melhor definição seria “pão e circo”. Certamente muitos já foram seduzidos, seja pela história do homem pobre, ou pelas facilidades para suas empresas e empreendimentos. Ou seja, a garantia de se fazer o que quiser, mesmo que isso signifique destruir aquíferos, água e floresta pelo simples fato de ser amigo e financiador parceiro. Seja a lágrima ou a propina, ambas operam na breguice cara que nos afunda num mar de lamentações.
* Publicado hoje no Jornal AN
Sobre Maria João Pires
17 horas atrás